SAMBODH TEXTO 4





A BUSCA DA SENSIBILIDADE





QUESTÃO: Acredito que o que estamos buscando seja sensibilidade...

É possível que a sensibilidade aumente, mas para isso, temos que remover alguns obstáculos básicos, que normalmente negamos e resistimos. Primeiro precisamos investigar com atenção o que está confuso em nossas mentes, que é o que muito sorrateiramente está solapando a nossa sensibilidade.

Os nossos sentidos estão embotados...

Sim. Aquela velha coisa: quantas vezes temos olhos, mas não vemos. Ouvidos, mas não escutamos. Vemos apenas o que a nossa mente deixa-nos ver. Ouvimos o que a nossa mente permite que ouçamos. É provado que nossa interpretação do mundo é muito individual. Vou te fazer uma pergunta: O que impede que agora, nesse momento, possamos estar sensíveis? O que, nesse momento impediria que eu sentisse a vida, não a vida que está dentro da minha mente, dentro da minha cabeça, mas a vida como ela é, a vida da natureza, a vida do universo?

O pensamento?

Sim, sim, sim. O pensamento. O pensamento fica pairado entre mim e a vida. Como a minha energia está focada no pensamento, há carência de energia para sustentar a minha presença no agora. Imediatamente a minha mente começa a tomar conta de meu momento. Todo o meu foco então vai para o pensamento. Quando meu foco de atenção se desloca para o pensamento, estou criando um mundo mental de pensamentos, histórias, medos, tragédias, filmes virtuais que vou contando a mim mesmo para então sofrer com isso, me debater com isso, brigar com isso.

Mas teríamos outra saída?

Sim. Permanecer com o foco de atenção em Si mesmo. Este Si mesmo não é pensamentos sobre si mesmo, nem sentimentos que estão acontecendo comigo. Não. Este Si mesmo é uma presença que, imediatamente quando vêm, é sentida como tranqüilizadora, como mantedora de uma  paz e aconchego para com o corpo e a mente.

É como se eu mudasse meu foco de fora para dentro?

Sim. A atenção geralmente tem sido para fora, voltada para fenômenos como pensamentos, objetos do mundo externo, sensações do corpo. Tudo isso é foco para fora. Na meditação, o foco é mudado. Sua atenção volta-se para dentro, e dentro não há nada para ver, para sentir, para olhar. Dentro há apenas o que você é em essência – aquilo que eles chamam de espírito.

Você chama este espaço de espírito? Significa que quando estamos focados para dentro nós trazemos uma energia invisível à tona? Mas é tão simples assim?

Pode-se complicar, se quiser. Mas não é preciso. Deus é este espírito único que não pode ser visto, nem olhado, nem sentido, mas que ao mesmo tempo, com olhos na presença, com ouvidos na presença, com sentidos na presença, este mesmo mundo torna-se Deus manifesto. O mundo manifestado agora é produto de Deus. Mas poucos vêem o mundo de Deus. Pois são poucos que vêem o mundo com o coração. Se você vê com os olhos da mente, com inúmeros pensamentos que lhe dizem isto ou aquilo, então você vive sempre com base em conceitos. E os conceitos não servem neste momento. Este momento é um momento sem conceitos! Apenas um momento.

Hum...Interessante...

É difícil vermos este novo ponto de vista. Precisamos ousar. É difícil para nós, ensinados e condicionados no modelo cristão de Deus, percebermos que Deus se manifesta como nós e vive cada ser humano como micro-partículas do seu Ser. O Deus que tanto aspiramos é nossa essência mais íntima. E está em nós. Relembrança é o que precisamos fazer. Nada disso é muito lógico. É misterioso. O mundo é místico...

Já ia te perguntar o seu conceito para a palavra místico.

Vem de “misterioso”. Místico é aquele que aceitou e aprendeu a celebrar o mistério que é a vida. Um sábio é um místico. Um sábio não é um filósofo – do ponto de vista oriental. Um filósofo é aquele que se “aproxima” da “idéia”. Filosofia vive de idéias. Mas do ponto de vista do místico, as idéias vem depois de eu ter nascido. Há momentos breves em que você não tem nenhum pensamento. O que há ali? Entre um pensamento e outro, o que há ali? Você olha nos olhos da amada ou do amado. Naquele segundo de amor não há pensamento – apenas amor acontecendo. Eles não são mais dois. O amor os uniu. O amor os transformou em Um.

Certo.

Portanto, um sábio não tem mais conhecimento. Um sábio não é um buscador. O buscador ainda está em busca de paz, ainda está evitando sofrer. O sábio não evita mais nada, apenas e simplesmente deixou de se incomodar com as polaridades da vida. Ele sabe que seu coração é do tamanho do coração do universo. Sabe que é o ego que imagina uma personalidade pequena. Aceitou a dualidade do viver. E não porque ele tem muito conhecimento, mas porque seu coração falou mais alto que o sentido da vida é o viver de cada momento. Então, no simples, no momento a momento, vai se descobrindo que a vida nos oferece a cada instante dádivas que passamos por cima. Por que? Porque o pensamento não deixa-nos ver e sentir.

Devo evitar o pensamento? Como faço isso?

Desloque seu foco de atenção da mente para a não-mente. Ou seja, deixe que sua atenção repouse em Si mesmo. E faça o que tem de fazer. Quando a atenção repousa em si mesmo, a mente toma uma nova ordem. Era isso que o sábio Krishnamurti queria dizer com “mente em ordem”.


Fale um pouco mais sobre esta atenção para dentro de Si mesmo. Acho isso muito importante. Isto é uma meditação?

Sim. Você precisa de duas coisas importantes para que o clima meditativo aconteça. Primeiro é aceitar a si mesmo como você é neste exato momento. Segundo é trazer seu foco para Si mesmo sempre que lembrar. Quando você pára de se julgar e se culpar pelas coisas erradas que aconteceram e acontecem em sua vida, uma nova corrente de energia flui pelo organismo. Culpa nunca levou ninguém ao amor. Culpa e medo são parentes. Mas culpa e amor estão distantes. Como vamos viver o amor se a culpa destrói as possibilidades de mudança? Então, a culpa deve ser vista como um grande obstáculo ao acordar. Com treinamento aprendemos a estar mais presentes. Aprendemos a perdoar cada ato, cada pensamento, porque cada pensamento é um pensamento de Deus.

Cada pensamento é um pensamento de Deus??

Tudo que existe é Deus. O mundo é a energia de Deus manifesta. A energia de Deus não manifesta nós chamamos de Espírito. Por isso, para o nosso ponto de vista, tudo é obra de Deus. O nosso sofrimento é simplesmente uma visão errada e ilusória de nós mesmos. A dor é criada pela ignorância e pela dualidade. A ignorância pode ser superada. Mas a dualidade, não. O mundo que vivemos é dual. Força opostas criam o cenário. Por causa disso estamos sujeitos ao nascimento, à doença, à velhice e á morte deste corpo. Portanto, sempre teremos os conflitos naturais da dualidade. Mas com a remoção da ignorância a respeito do que somos, a vida é vista de uma perspectiva diferente. Sabedoria faz nascer uma mente inocente. Quando digo que tudo é Deus, me refiro a que tudo vem de uma mesma substância. A Fonte da dualidade, a Fonte dos opostos, a Fonte da criação, o princípio através do qual a vida vive. Tudo é esta mesma energia manifesta na diversidade. Os orientais tinham uma visão chamada Advaita. Significa não-dual. Diz que tudo que há é só uma impressão, uma aparência, um fenômeno passageiro que meus sentidos e meu pensamento estão criando. Mas para onde vai e de onde vem, eles chamam de Absoluto. Inominável. Aquilo que é um verdadeiro mistério!

Se cada pensamento é um pensamento de Deus, porque você diz que não devo focar os pensamentos?

Simplesmente porque o motivo de cada pensamento surgir é para me apontar para aquilo que não é um pensamento. O pensamento é simplesmente para diferenciar. Para criar um contraste. Se, de um lado, tenho pensamentos, de outro tenho o observador dos pensamentos, uma pura consciência testemunhadora. Este observador, essa testemunha silenciosa está sempre aqui. É só voltar o foco para ela. Para que ela seja encontrada, para que o espírito seja encontrado, pensamentos aparecem. Logo, os pensamentos são mensagens de Deus dizendo “Não é por aí!”. Os pensamentos são importantes para podermos diferenciar e focar Deus em Si mesmo. No contraste, o pensamento surge do não-pensamento. A matéria surge do espírito. Tudo é uma coisa só.

Quando me aproximo do pensador, ou seja, da origem dos pensamentos (consciência pura), estou mais próximo do espírito, que é a parte sutil da matéria.

Matéria e espírito não são dois. A ciência muito tempo separou os dois. Nosso pensamento sempre foi separar para podermos visualizar melhor o que cada coisa é. Separou-se a mente do corpo. Deus do demônio. Matéria e espírito. E criou-se lendas e mitos sobre cada parte. Hoje, a própria ciência está contando uma história diferente. É como se a matéria fosse a parte densa do espírito. E o espírito, a parte sutil da matéria. Os dois não estão separados. Assim como dia e a noite. Qual o momento exato em que a noite se transforma em dia? E vice-versa? Eles se interpenetram. Pois matéria e espírito se interpenetram e formam um todo orgânico. Mas lembre: a mente está destinada a só ver matéria. Matéria densa: corpos, objetos. Matéria sutil: emoções e pensamentos. O mundo do espírito não pode ser captado pela mente. O pensamento não pode entender o amor. O pensamento não pode entender a meditação. O pensamento não pode entender a dança, a música, a verdadeira arte. O pensamento pode descrever. Pode criar um cem número de teorias da arte e da estética, mas jamais um pensamento poderá compreender totalmente essas coisas. Elas não foram feitas para serem entendidas com o pensamento. Elas foram feitas para serem vivenciadas e sentidas espiritualmente. A filosofia estuda a idéias. A meditação se interessa pelo pensador das idéias. Vai na busca daquele que “têm” as idéias. E quando encontra “aquele” que poderia ter as idéias, ela não encontra nada fixo. Ela encontra simplesmente uma presença. Essa presença amorosa  é o espírito vivo de cada momento. Você como um ego centrado em si mesmo desaparece para nascer algo mais derretido, mas flexível, mais em sintonia como o instante do que com o pensamento. Sintonia com o instante é seguir o fluxo da vida. Sintonia com o passado é seguir o fluxo do pensamento. Retorne para Si mesmo! Assim, você se verá como uma presença espiritual que está em tudo que você vê, e ao mesmo tempo, em sua pureza absoluta, em tudo que você não pode ver jamais. Mas tudo isso é você!

Por isso o misterioso...o místico...não é mesmo?

Sim. O relaxamento existe porque você não está mais “egoístico- centrado-em-si-mesmo”. Note como reclamamos da vida em certos momentos. “Meus problemas”. “Minha ansiedade”. Sofremos por problemas parecidos. A mente faz parecer que apenas NÓS sofremos daquele jeito. Mas não é você. É um sofrimento humano, que vem do pensamento humano de se sentir separado de Deus. Cada pensamento é um aviso. Cada pensamento está te trazendo para perto de Si mesmo, se você assim quiser. Para isso, preste mais atenção a Si mesmo do que ao pensamento.

Sim, todo pensamento tem um observador, não é mesmo?

Exato. Bem lembrado. Cada pensamento é matéria sutil. Mas este pensamento está sempre sendo observado por você. E você é espírito! Matéria não tem consciência. A consciência de que você tem um pensamento não vem do pensamento. Você é essa consciência. Vem um pensamento. Mas quem sou eu? Matéria ou espírito? Espírito.

Porque estás dizendo que eu sou espírito apenas? Não estou nesse corpo, e de certa forma sou este corpo também?

Do mesmo modo que falamos que o pensamento é um truque de Deus para descobrirmos o pensador, que é espírito, exatamente da mesma maneira Deus usa o mundo. Usa a matéria para descobrir o espírito. Este mundo é usado para descobrir a presença do espírito. Logo, o corpo, a mente, tudo isto é impermanente e deve perecer. Por onde você olhar verificará sinais de mudança. Este mundo é totalmente mutante. É o mundo do espírito que mantém este mundo assim, unido. A inteligência do espírito. Estou dizendo que somos espírito em essência porque a matéria é apenas uma visão do nosso cérebro e nossos sentidos. Em um certo sentido, tudo é espiritual. Quando estamos identificados com nossos corpos, vivendo nesse mundo, temos a tendência errônea a separar matéria do espírito. Mas isso é só mais uma de nossas teoria criadas pelo pensamento.

E tudo isso para nos dar mais sensibilidade. É o espírito então que nos dá a sensibilidade e a beleza. Mudar o foco. Trazer o foco da atenção para Si.

Isto mesmo. Esta é a mensagem do meu mestre. É o que tento compartilhar. Este compartilhar por si só é minha alegria. Iluminação pra mim é compartilhar alegria. E ver alegria onde todos apenas vêem conceitos.




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